Ao lado
Saídas ocasionais. Pessoas
tentando se encontrar em outras. Uma felicidade mascarada com muitas doses de bebidas.
Muitos eram ousados, outros mais calados num canto só a observar. Não há um
motivo especifico em se estar ali, tomar algo só para dispersar da realidade.
Alguém me chama a atenção, não
por sua beleza ou possível companhia, mas por estar no bar próximo a minha
mesa. Observador, galanteador barato, que devora tudo apenas com os olhos.
Confiança em demasia faziam seu rosto sorrir para todos os lados em busca de
algo ou alguém.
Não esperava ser notada. Sem
querer ganhei sua atenção, mas não necessariamente desejasse isso, pois apenas
gosto de analisar gestos inconscientes de estranhos. Seu olhar intimidador me
deixava sem jeito. Ignorei-o, mas quando percebi o garçom já estava ao meu lado
fazendo uma ponte entre mim e o senhor “ego inflado”. Número de telefone e o
nome. Era apenas isso que ele precisaria para me importunar.
Sem perceber, sua presença
inconveniente logo foi notada por todas na mesa. As garotas me olharam como quem
diz “ele está afim de você”. Trataram de ir embora alegando estar tarde e me
deixando sozinha com aquele estranho. Passando alguns minutos já me sentia
entediada com aquele “papo furado” de viagens, estabilidade financeira, planos,
projetos. Confesso que não havia interesse nenhum naquele cidadão, mas decidi
dar uma chance pela ousadia da aproximação.
Narcisista e egocêntrico, não mostrou
interesse em quem eu era, fazia ou gostava. Estava ali para ser visto,
admirado. Não gosto de bajulações. Acho que era isso que ele esperava a noite
toda. Estava tarde precisava ir embora. Pediu para me levar para casa. Não
havia necessidade, pois estava com meu carro. Pediu para nos vermos no dia
seguinte, dei uma desculpa esfarrapada, ao qual não colou. Disse que me ligaria
mesmo assim para certificar se eu estaria disponível.
No dia seguinte, em meio a correções
ortográficas, o telefone toca. A secretária avisa que há alguém na linha.
Pergunto quem era. Jared. Aviso à secretária que não posso atender. E que
ligaria assim que pudesse e quisesse é claro. Não foi nada premeditado, foi
apenas um “chega pra lá” em um desconhecido que teimava em manter contato. Outra
tentativa inútil da minha parte.A minha distração na agencia deixou Jared
mendigando atenção, ao qual não dei nenhum contrato assinado que faria isso. À
noite em casa, comecei a ler os SMS de Jared ao qual lotou minha caixa de
mensagens. Foi aí que comecei a me preocupar.
Enquanto preparava meu chá de
todas as noites, meu celular toca. E por um instante havia esquecido o rapaz da
ultima noite no bar. Tentativa fracassada. Ele queria se fazer presente. Atendo
o celular, ele tentava não demonstrar a frustração de não estar disponível ou
mostrar algum interesse por ele o dia todo. Cobranças. Fui objetiva e ele mudou
o foco da conversa. Insistiu em me ver, mas disse que estava cansada e muito
atarefada com meu trabalho e quem sabe no fim de semana. Por que fiz isso. Ele
me ligava todos os dias para confirmar o nosso encontro do fim de semana.
Enfim sexta-feira. Não pensava em
mais nada a não ser ficar em casa, lendo um livro ou assistindo a um filme. Meus planos foram ‘agua a baixo’. Jared colou
no meu pé o fim de semana todo. Não havia como ignorá-lo, pois ele estava à
minha porta sexta à noite. Deixei me levar, para ver até onde ele iria. Comecei
a gostar de sua companhia. E com isso, começamos a nos ver com frequência. Ele
já falava em casamento. Gostava de Jared, mas não a ponto de formar uma família
com ele. Alertei-o diversas vezes, que sua ideia era muito equivocada, mas ele
me ignorava e continuava fazendo planos para “nosso futuro”. Não demorou muito
e ele se tornava amigo de toda a minha família.
Jared tinha facilidade com as
palavras e com isso ganhou a confiança de meu pai, um oficial do exercito que
desconfiava até da própria sombra. Minha mãe estava a mimá-lo com comidas
preferidas e tudo mais. Não entendia como ele fez isso, mas decidi de uma vez
por todas, colocar um ponto final nessa relação.
Imaginava que Jared, não desistiria tão fácil
e ficaria no meu pé por mais algum tempo. Ingenuidade da minha parte. Quando o
chamei para lhe dizer que estava decidida a terminar, surgiu outro Jared em
minha frente. Não conhecia seu lado obsessivo, se bem que em algumas discussões
ele sempre dava algum sinal de loucura. Mas agora era tarde demais e estava
presa a alguém doentio. Disse que não ia me deixar jogar tudo o que tínhamos
com tanta facilidade assim. Fez ameaças, as quais me deixaram em alerta. Pedi
para que ele fosse embora. Mas ele ignorou meu pedido e disse que se não fosse
ficar com ele jamais ficaria com outro alguém e alegando ser propriedade sua.
Possessivo questionava-me querendo saber quem era o “cara” e que estava o
traindo. Tentava explicar que não era nada disso e que não queria mais aquela
situação.
Não tínhamos nada em comum. E aí
começou meu tormento. Ele estava sempre a me seguir. A princípio ele ficava me
sondando de longe, na espreita. Com o tempo ele começou a interferir nos meus relacionamentos.
Acho que ele deveria ter algum informante, pois sempre que eu tinha um encontro
com alguém, ele sempre aparecia e logo me abordava com frases do tipo “Olá meu amor! Quem é ‘esse’ seu amigo?”,
destruindo toda e qualquer possibilidade de explicação.
Sua obsessão me deixou paranoica,
ele havia se tornado um detetive me vigiando onde quer que eu estivesse,
mostrando que não estava para brincadeira. Quando me distraia ele sempre me
dava algum sinal que estava por perto. Meu celular não parava de tocar e se eu
não o atendia logo chegava um SMS com frases do tipo “Bom dia querida aproveite seu café”,e oavistando em frente à
cafeteria em que me encontrava.Com o tempo Jared começou a ser mais ousado.
Começaram as perseguições de carro. Parecia que estávamos numa corrida.
Meus amigos se afastaram por
conta disso. Depois de muita insistência
Lisa me contou que estava sendo ameaçada. Com medo ela informava meus passos à
Jared.Não imaginava que minha melhor amiga também corria risco. Foi aí que decidi
dar um basta nisso tudo.Em casos extremos é preciso tomar uma posição.
Precisava pensar como Jared. Não tinha ideia se meu pai entenderia, mas mesmo
assim pedi sua ajuda. Como sua “menina dos olhos” ele não hesitou em me ajudar.
Preocupado com minha segurança me instruiu como mandava o figurino. Para meu
pai era uma Magnum 41, mas para mim era uma arma igual às outras, nem tinha
ideia de que era até então. Um número de telefone com três dígitos era o que
precisaria se acaso nossa estratégia desse errado. Papai era influente e por
isso tinha esse tipo de proteção em qualquer momento que precisasse.
O plano estava todo arquitetado,
agora era só esperar o animal cair na armadilha.Esperamos Jared fazer contato.
Lisa avisou onde eu estaria e com quem. Exatamente às dezesseis horas cheguei
ao Shopping Central. Comecei a dar voltas com meu carro pelo estacionamento
certificando-me que Jared estivesse lá. Como imaginávamos, ele já estava na
espreita. Demorei a sair do carro. Fiquei vulnerável como estava premeditado,
ele logo me abordou. Impulsivo, me segurou pelo braço e começou a falar alto, exigindo
explicações de que estava fazendo ali. Disse que não era da conta dele. Sempre
me fazendo ameaças. Lisa estava na entrada do estacionamento, viu tudo de longe
e acionou os policiais. Jared me empurrou dentro do carro à força. Ele estava
com um canivete suíço.
Dissimulada comecei a chorar,
para assim distraí-lo e tomar tempo para pegar o revolver da minha bolsa. Ele
começou a chorar e falava o quanto me amava, mas que não poderia viver daquele
jeito. A única maneira de acabar com todo seu sofrimento era se eu morresse. No
instante em que ele apontou o “canivetezinho” para meu pescoço eu encostei a
Magnum no seu peito. Não hesitei. E de subido ele arregalou os olhos. O tiro
foi abafado por sua camisa de linho. Jared caiu nos meus braços e começava a
esvair em sangue.
Quando os policiaischegarameu estava com o
sangue de Jared em minhas mãos. O sangue tinha uma cor muito escura parecia
podre. Comecei a chorar. Jared estava com os olhos abertos, deitado sobre o
volante do carro. Eu quem o coloquei nessa posição antes que os policiais
chegassem. Olhei bem para ele, guardei aquele rosto miserável como forma de
vingança por tudo o que me fez. Não sinto remorso por nada. Pode ser que ele
realmente gostasse de mim, mas eu não sentia nada por ele, muito menos
pena.Agora estou livre e não tenho mais com que me preocupar. E foi assim que
minha historia com Jared teve um ponto final.
FIM
